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quinta-feira, 10 de novembro de 2011
Demétrio Magnoli 10-11-11
No Enem, a saudação ao Duce
DEMÉTRIO MAGNOLI
Questão do Enem, 2001: “A Lei 9.491, de 9 de setembro de 1997, criou o Programa Nacional de Desestatização, que reordena a posição estratégica do Estado na economia, transferindo à iniciativa privada atividades indevidamente exploradas pelo setor público [Disponível em: http://www.planalto.gov.br]. A referida lei representa um avanço não só para a economia nacional, mas também para a sociedade brasileira, porque (...)” Resposta, segundo o gabarito: “Amplia os investimentos produtivos e a riqueza geral da nação.”
A questão acima é uma invenção minha: nunca foi proposta num Enem. Mas o que diria Fernando Haddad se, no governo FHC, o MEC a tivesse inserido num exame nacional que decide o futuro universitário de milhões de estudantes brasileiros? Desconfio que, coberto de razão, ele classificaria a prova como um gesto de covardia autoritária pelo qual os candidatos seriam forçados a se curvar à doutrina política do poder de turno, repetindo compulsoriamente o credo expresso no site do Planalto sob pena de exclusão do ensino superior. Pois o atual ocupante do MEC acaba de produzir um gesto assim, indigno de uma nação democrática, na mais recente edição do Enem.
Eis o texto da questão: “A Lei 10.639, de 9 de janeiro de 2003, inclui no currículo dos estabelecimentos de ensino (...) a obrigatoriedade do ensino sobre História e Cultura Afro-Brasileira e determina que o conteúdo programático incluirá o estudo da História da África e dos africanos, a luta dos negros no Brasil, a cultura negra brasileira e o negro na formação da sociedade nacional, resgatando a contribuição do povo negro nas áreas social, econômica e política pertinentes à História do Brasil (...). [Disponível em: http://www.planalto.gov.br]. A referida lei representa um avanço não só para a educação nacional, mas também para a sociedade brasileira, porque (...)” Resposta, segundo o gabarito: “Impulsiona o reconhecimento da pluralidade étnicorracial do país.” Sob Haddad, o Enem converteu-se em campo de reeducação ideológica para jovens. Diante disso, pouco significam os sucessivos espetáculos de incompetência gerencial que o atormentam.
A lei que os candidatos estão obrigados a celebrar não é uma ferramenta de combate ao preconceito racial, mas a condensação da doutrina racialista. Seu pressuposto é a divisão da humanidade em raças. Segundo ela, as pessoas não são indivíduos, mas componentes de “famílias raciais” definidas por ancestralidades supostas e involucradas em culturas singulares. As escolas, prega a lei, devem ensinar uma história particular do “povo negro” (por oposição implícita ao “povo branco”). Desde a mais tenra idade, os estudantes aprenderiam a enxergar a si mesmos como participantes de uma comunidade racial.
O gabarito da questão está errado e inexiste resposta correta entre as alternativas apresentadas no exame. Mas a resposta certa, segundo o próprio MEC, consta de um parecer do Conselho Nacional de Educação no qual se explica que a lei “deve orientar para (...) o esclarecimento de equívocos quanto a uma identidade humana universal”. Tal resposta não aparece entre as alternativas pois ela explicitaria a insolúvel contradição entre a lei da educação racial e a Declaração Universal dos Direitos Humanos, que repousa sobre a afirmação da realidade de “uma identidade humana universal”.
O contrato constitucional das democracias está amparado no princípio da pluralidade. O princípio significa que não se reconhece doutrina ou ideologia oficialmente verdadeira, à qual a nação deveria fidelidade ou obediência. Dele, extrai-se um corolário: o sistema de ensino não pode promover catequese ideológica. Escolas, livros didáticos e exames vestibulares não têm o direito de doutrinar — isto é, de atribuir estatuto de verdade científica ao que não passa de um ponto de vista político. Haddad evidencia no Enem a sua visceral aversão ao princípio da pluralidade. Ele é ministro num Estado democrático, mas sonha ser comissário de um Estado totalitário.
A questão escandalosa não é um raio no céu claro. Nos últimos anos, enquanto se metamorfoseava em vestibular nacional, o Enem se converteu num pátio de folguedos da pedagogia da doutrinação. O desfile de catecismos ideológicos abrange, ao lado de versões cômicas de um marxismo primitivo, constrangedores panfletos do ambientalismo apocalíptico e manifestos rudimentares do multiculturalismo pós-moderno. Os exames, especialmente suas seções de ciências humanas, parecem emanar de um acordo de partilha territorial firmado entre os arautos acadêmicos do cortejo de ONGs e “movimentos populares” associados ao governo. Contudo, mesmo sobre esse deplorável pano de fundo, exigir que milhões de jovens estudantes repitam como autômatos as sílabas, palavras e frases escritas pelo Palácio do Planalto equivale a ultrapassar a fronteira da obscenidade.
Meu avô materno, um antifascista perseguido pelo regime de Mussolini, deixou a Itália com a esposa e dois filhos pequenos na hora da eclosão da guerra mundial. No Brasil, beneficiando-se de uma bolsa de estudo baseada no mérito, minha mãe pôde ser matriculada no prestigioso Dante Alighieri, que era um colégio da comunidade italiana de São Paulo. Por uma dessas amargas ironias, durante dois anos, até a declaração brasileira de guerra ao Eixo, ela tinha a obrigação, compartilhada com todos os colegas, de fazer a saudação ao Duce à entrada da escola. A exposição a desenhos animados violentos não transforma crianças em adultos assassinos. A rotina da saudação diária a Mussolini em nada reduziu o desprezo devotado por minha mãe ao fascismo. Os estudantes não aderirão ao credo identitário do racialismo por serem compelidos a pagar pedágio à verdade ideológica oficial no Enem. Mas a democracia brasileira fica um pouco menor quando o ministro da Educação veste a fantasia do Duce.
DEMÉTRIO MAGNOLI é sociólogo e doutor em geografia humana pela USP. E-mail: demetrio.magnoli@terra.com.br.
domingo, 6 de novembro de 2011
Aparelhamento da UNE
06/11/2011
às 14:50 \ O País quer Saber
A degradação da UNE
TEXTO PUBLICADO NO ESTADÃO DESTE DOMINGO
Quase um ano depois de ter recebido R$ 30 milhões do governo Lula para construir sua sede na Praia do Flamengo, no Rio de Janeiro, a União Nacional dos Estudantes (UNE) até agora não conseguiu ir além da pedra fundamental, que foi lançada pelo presidente Lula da Silva em dezembro do ano passado. A concessão desse valor foi justificada por Lula como pagamento de indenização devida pelo Estado brasileiro pelos danos patrimoniais à entidade durante o regime militar.
Como a UNE não é uma entidade pública, o governo não podia transferir dinheiro dos contribuintes para custear as obras. A indenização por danos patrimoniais foi o expediente encontrado pelo governo Lula para contornar essa proibição legal. Primeiro, o governo reconheceu a responsabilidade da União na destruição do prédio da entidade, que foi incendiado em 1.º de abril de 1964. Em seguida, Lula autorizou a União a promover uma “reparação” no montante equivalente a seis vezes o valor de mercado do terreno.
É muito dinheiro, mas nada garante que os dirigentes da UNE terão a competência necessária para a obra sem precisar pedir mais dinheiro público, em troca de apoio político aos governantes de plantão.
Ao contrário do que ocorreu no passado, quando lutou efetivamente, tanto contra a ditadura Vargas quanto contra a dos militares, a UNE é hoje uma força auxiliar do governo e um reduto do PC do B. Desde a ascensão de Lula ao poder, em 2003, a UNE age como um órgão chapa-branca, apoiando todas as iniciativas administrativas e políticas do Palácio do Planalto.
Pelos serviços prestados, ficou com o direito de indicar antigos dirigentes da entidade para o Ministério do Esporte – vários deles envolvidos no escândalo de repasses irregulares de recursos públicos a ONGs fantasmas – e ganhou polpudas verbas tanto da administração direta como da indireta, sob a justificativa de divulgar programas dos Ministérios da Educação, da Saúde, da Cultura e da Igualdade Racial, promover “caravanas da cidadania” em universidades federais, realizar jogos estudantis e organizar ciclos de debates.
Só do Ministério do Esporte, a UNE ganhou um total de R$ 450 mil, entre 2004 e 2009, para promover eventos de “esporte educacional” e capacitação de gestores de esporte e lazer. Ao que parece, como os dirigentes da UNE transformam-se, em geral, em estudantes profissionais que não costumam frequentar salas de aulas, o lazer se converteu em sua principal “especialização”.
Desde 1995, quando começou a obter verbas governamentais, a UNE já recebeu mais de R$ 44 milhões dos cofres públicos. Do montante acumulado nesses 17 anos, 97,4% foram desembolsados durante os oito anos de governo do presidente Lula. Os 2,6% restantes foram repassados pelo governo do presidente Fernando Henrique. Os números foram coletados pelo site Contas Abertas, com base no Sistema Integrado de Administração Financeira (Siafi).
A exemplo do que está ocorrendo com a maioria das ONGs financiadas pelo Ministério do Esporte, a maneira como a UNE gasta o dinheiro dos contribuintes também é, no mínimo, perdulária. Depois de identificar recibos frios e gastos com restaurantes de luxo e bebida importada nas contas da entidade, o Ministério Público Federal pediu as cópias das prestações de contas da entidade aos Ministérios e empresas públicas e sociedades de economia mista com que mantém convênios. E, no dia 6 de agosto, a Procuradoria-Geral do Ministério da Fazenda lançou a UNE como inadimplente no Cadastro Informativo de Créditos não Quitados do Setor Público Federal (Cadin).
Procurados para esclarecer o atraso da construção de sua sede com dinheiro público, os motivos das suspeitas do Ministério Público Federal e o que levou à inadimplência no Ministério da Fazenda, os dirigentes da entidade limitaram-se a afirmar que as obras da nova sede começarão em 2012 e que as verbas recebidas do governo têm sido gastas em “congressos e bienais da cultura”. Isso mostra a que nível de degradação política chegou a UNE.
sexta-feira, 28 de outubro de 2011
Próstata
Câncer de próstata: nem sempre temível?
FERNANDO COTAIT MALUF
A monitorização continuada é outra opção terapêutica que deve ser discutida com os pacientes com câncer de próstata pouco agressivo
O CÂNCER de próstata é hoje o mais comum dos tumores que acometem o homem. No passado, seu diagnóstico era, com frequência, feito em fases mais avançadas, já que não havia ainda a cultura da prevenção e do diagnóstico precoce, baseada em exames de toque retal e PSA, um marcador tumoral bastante fidedigno, preconizados em caráter anual a partir dos 50 anos de idade. Como consequência, a mortalidade por câncer de próstata caiu em 31% nos últimos 13 anos.
As duas formas de tratamento mais utilizadas com o objetivo de cura são a cirurgia (chamada de prostatectomia radical) e a radioterapia, que, apesar de eficazes, podem apresentar complicações indesejáveis. Assim, 25% a 70% dos pacientes operados evoluem com algum grau de perda involuntária da urina e diminuição da potência sexual, e a radioterapia causa em 4% dos pacientes a incontinência urinária, em 31%, a limitação da potência sexual, e em 15%, sintomas irritativos do reto e da bexiga.
Existem controvérsias na literatura médica sobre qual a melhor opção terapêutica, que deve ser definida em função de uma série de parâmetros: características do tumor, idade do paciente, existência de doenças associadas, índices de cura e de complicações e, evidentemente, qualidade de vida após o tratamento. Afinal, não é incomum pacientes que, embora curados, vivem atormentados por impotência, incontinência urinária ou dano aos órgãos adjacentes à próstata.
Nas últimas décadas, muito se tem pesquisado para identificar fatores prognósticos no câncer de próstata, valorizando-se no presente aspectos clínicos, níveis de PSA, tamanho e grau de diferenciação do tumor, bem como aspectos genéticos e moleculares, almejando o objetivo de não só definir a melhor forma de tratamento para cada caso mas também de responder a uma intrigante questão: todos os pacientes precisam realmente ser tratados quando de seu diagnóstico de câncer de próstata? Ou mesmo em algum momento da vida? Assim, cientistas buscam fatores clínicos e patológicos que possam auxiliar na identificação de pacientes com tumores de próstata menos agressivos, sem risco iminente à saúde e sem a real necessidade de tratamento imediato, denominados tumores indolentes.
Aparentemente, encaixam-se nesse grupo as neoplasias bem diferenciadas, pequenas e confinadas à glândula e que geram níveis baixos de PSA. De acordo com alguns estudos, elas representam de 15% a 55% de todos os tumores de próstata.
Para os pacientes que se enquadram nessa situação, fala-se hoje na estratégia conhecida mundialmente como "watchful and waiting", que é postergar ao máximo a indicação de tratamento ou mesmo evitá-lo.
Nesse sentido, duas importantes publicações internacionais revelam que só dois de 620 pacientes de bom prognóstico, inicialmente observados dentro dessa estratégia, morreram em decorrência do câncer de próstata em um período de observação de 3,5 a oito anos. No intervalo avaliado, entre 60% e 76% dos pacientes não necessitaram de nenhuma forma de tratamento (e muitos deles talvez nunca venham a necessitar).
Bastante relevante é o fato de que os pacientes tratados posteriormente, quando houve a indicação, não apresentaram aparente prejuízo em suas chances de cura, além de poderem aproveitar por anos, de modo amplo, os aspectos fisiológicos pertinentes à potência sexual, à continência urinária e à integridade de outros órgãos e aparelhos.
Essa estratégia, quando bem indicada, pode, além de blindar os pacientes contra possíveis efeitos colaterais decorrentes dos tratamentos, evitar gastos enormes com terapêuticas de pequeno impacto positivo.
Em suma, a monitorização continuada ("watchful and waiting") representa, numa época de grandes avanços tecnológicos, mais uma opção terapêutica que deve ser discutida com os pacientes com câncer de próstata pouco agressivo e que desejam preservar sua qualidade de vida, contrapondo-se ao tratamento imediato, preconizado para os pacientes cujos tumores apresentam características que podem colocar a vida em risco.
Assim, para o futuro, torna-se imperativo distinguir com mais propriedade o grau de agressividade do câncer de próstata, a fim de propiciar a melhor forma de tratamento para cada paciente, evitando "supertratar" os pacientes e macular um dos aforismos mais tradicionais da medicina: "primum, non nocere" [antes de tudo, não causar dano].
FERNANDO COTAIT MALUF, doutor em urologia pela Faculdade de Medicina da USP, é coordenador do Programa de Residência de Oncologia Clínica do Centro de Oncologia do Hospital Sírio Libanês.
quinta-feira, 27 de outubro de 2011
A Questão Judaica
Assunto: Artigo Folha de São Paulo - A questão judaica - Luiz Felipe Pondé - segunda-feira, 24 de outubro de 2011
A QUESTÃO JUDAICA
Estou em Jerusalém. Sou a favor do Estado palestino, mas acho que uma das coisas mais inúteis entre nós é discutir o problema israelo-palestino. Falta informação. Quando um ministro israelense disse que Lula deveria estudar a história do conflito antes de se meter, não era piada.
A mídia tem claro viés contra Israel. Fotos de palestinos em sangue após ataques de Israel abundam, mas fotos de israelenses em pedaços nos inúmeros ataques ou mísseis lançados contra o Estado judeu nos últimos anos raramente são vistas.
Muita gente nada sabe da história do conflito, mas tem uma certeza pétrea contra Israel. De onde vem essa fúria? Da velha “questão judaica” (o habito de ver os judeus como “causa” dos problemas)?
Nada sabe sobre o fato de que as fronteiras de Israel não são minimamente seguras e que a paz armada que aqui existe é devido ao gigantesco poder militar superior de Israel sobre os países árabes e muçulmanos da região e à paranoia da segurança vigiada contínua.
Separar a questão palestina da ameaça iraniana é coisa de quem não entende nada do assunto ou é ideológico.
Se países e terroristas muçulmanos não destroem Israel é porque não podem, e não porque não querem. Poucos grupos palestinos estão dispostos a negociar reconhecendo a existência de Israel. Muitos continuam com a antiga política de “judeus ao mar”.
O argumento da insegurança geopolítica de Israel é fato real, mesmo que muitos especialistas se recusem a levar em conta por razões ideológicas. Este argumento é usado por grupos israelenses radicais contra as negociações. E por isso esses radicais ganham força para criar colônias na Cisjordânia.
Muitos israelenses são a favor da fundação do Estado palestino, mesmo sabendo que nem por isso os ganhos geopolíticos serão imediatos.
O problema israelo-palestino é um problema israelo-árabe-mulçumano. A origem foi a recusa dos países árabes em aceitar a fundação do Estado de Israel em 1948 e a guerra a ele declarada em seguida. A manchete do “New York Times” de 15 de maio de 1948 falava da decisão egípcia de invadir Israel.
Esses países nunca estiveram interessados num Estado dos árabes (hoje denominados “palestinos”), que viviam na parte designada para eles na “partilha da Palestina”, feita pelos ingleses que eram donos da terra.
Mesmo o fato de que jamais existiu nos últimos 3.000 anos qualquer unidade política autônoma aqui, a não ser o reino judeu, é desconhecido por muita gente boa.
A região era chamada de Judeia (como assim o foi por milênios) e apenas os romanos, no século 2 d.C., passaram a usar o nome “Palestina” como parte da dissolução do reino judeu.
A vinda dos judeus europeus no século 20 para cá foi motivada (além do nazismo) justamente por esta continuidade histórica comprovada e interrompida desde a destruição pelos romanos do reino israelita no início da Era Cristã.
Continuidade nunca perdida, como comprova a “oração” judaica: “Este ano aqui, ano que vem em Jerusalém”. Dizer que os palestinos seriam os filisteus é semelhante a dizer que os europeus são neandertais porque estes viviam lá 50 mil anos atrás.
Não há nenhuma continuidade arqueológica ou cultural que comprove a relação filisteus-palestinos, ao contrário da continuidade israelita antiga e moderna, sobre a qual, aliás, se sustenta grande parte da cultura ocidental.
A hipótese do historiador israelense “pós-sionista” Shlomo Sand, que nega a continuidade judaica, está longe de ser hegemônica, mas vale a pena ler “A Invenção do Povo Judeu”, ed. Benvirá, apesar do viés anti-Israel do autor. Será que em algum país árabe ou no Irã alguém poderia escrever um livro “contra si mesmo”?
Quase sempre quem critica Israel são pessoas com motivações ideológicas que identificam na questão uma causa contra o imperialismo judaico ou americano.
Ou “pior”: a convergência entre o atávico antissemitismo e o sentimento anti-Israel é óbvia e se comprova em falas ainda atuais como “Israel só existe por conta da grana dos judeus americanos que mandam nos EUA”.
A velha “questão judaica” não acabou.
terça-feira, 25 de outubro de 2011
Lula analisado-25-10-2011 O Globo
Lula para sempre
MARCO ANTONIO VILLA
Luiz Inácio Lula da Silva não é um homem de palavra. Proclamou diversas vezes que, ao terminar o seu mandato presidencial, iria se recolher à vida privada e se afastar da política. Mentiu. Foi mais uma manobra astuta, entre tantas que realizou, desde 1972, quando chegou à diretoria do sindicato de São Bernardo, indicado pelo irmão, para ser uma espécie de porta-voz do Partidão (depois de eleito, esqueceu do acordo).
A permanente ação política do ex-presidente é um mau exemplo para o país. Não houve nenhuma acusação de corrupção no governo Dilma sem que ele apoiasse enfaticamente o acusado. Lula pressionou o governo para não “aceitar as pressões da mídia”. Apresentou a sua gestão como exemplo, ou seja, nunca apurou nenhuma denúncia, mesmo em casos com abundantes provas de mau uso dos recursos públicos. Contudo, seus conselhos não foram obedecidos.
Não deve causar estranheza este desprezo pelo interesse público. É típico de Lula. Para ele, o que vale é ter poder. Qualquer princípio pode ser instrumento para uma transação. Correção, ética e moralidade são palavras desconhecidas no seu vocabulário. Para impor a sua vontade passa por cima de qualquer ideia ou de pessoas. Tem obtido êxito. Claro que o ambiente político do país, do herói sem nenhum caráter, ajudou. E muito.
Ao longo do tempo, a doença do eterno poder foi crescendo. Começou na sala de um sindicato e terminou no Palácio do Planalto. E pretende retornar ao posto que considera seu. Para isso, desde o dia 1 de janeiro deste ano, não pensa em outra coisa. E toda ação política passa por este objetivo maior. Como de hábito, o interesse pessoal é o que conta. Qualquer obstáculo colocado no caminho será ultrapassado a qualquer custo.
O episódio envolvendo o ministro do Esporte é ilustrativo. A defesa enfática de Orlando Silva não dependeu da apresentação de provas da inocência do ministro. Não, muito pelo contrário. O que contou foi a importância para o seu projeto presidencial do apoio do PCdoB ao candidato petista na capital paulista. Lula sabe que o primeiro passo rumo ao terceiro governo é vencer em São Paulo. 2014 começa em 2012. O mesmo se repetiu no caso do Ministério dos Transportes e a importância do suporte do PR, independentemente dos “malfeitos”, como diria a presidente Dilma, realizados naquela pasta. E, no caso, ainda envolvia o interesse pessoal: o suplente de Nascimento no Senado era o seu amigo João Pedro.
O egocentrismo do ex-presidente é antigo. Tudo passa pela mediação pessoal. Transformou o delegado Romeu Tuma, chefe do Dops paulista, onde centenas de brasileiros foram torturados e dezenas foram assassinados, em democrata. Lula foi detido em 1980, quando não havia mais torturas. Recebeu tratamento privilegiado, como mesmo confessou, diversas vezes, em entrevistas, que foram utilizadas até na campanha do delegado ao Senado. Nunca fez referência às torturas. Transformou a casa dos horrores em hotel de luxo. E até chegou a nomear o filho de Tuma secretário nacional de Justiça!!
O desprezo pela História é permanente. Estabeleceu uma forte relação com o símbolo maior do atraso político do país: o senador José Ribamar da Costa, vulgo José Sarney. Retirou o político maranhense do ocaso político. Fez o que Sílvio Romero chamou de “suprema degradação de retrogradar, dando, de novo, um sentido histórico às oligarquias locais e outorgando-lhes nova função política e social”. E pior: entregou parte da máquina estatal para o deleite dos interesses familiares, com resultados já conhecidos.
O desprezo pelos valores democráticos e republicanos serve para explicar a simpatia de Lula para com os ditadores. Estabeleceu uma relação amistosa com Muamar Kadafi (o chamou de “amigo, irmão e líder”) e com Fidel Castro (outro “amigo”). Concedeu a tiranos africanos ajuda econômica a fundo perdido. Nunca — nunca mesmo — em oito anos de Presidência deu uma declaração contra as violações dos direitos humanos nas ditaduras do antigo Terceiro Mundo. Mas, diversas vezes, atacou os Estados Unidos.
Desta forma, é considerável a sua ojeriza a qualquer forma de oposição. Ele gosta somente de ouvir a sua própria voz. Não sabe conviver com as críticas. E nem com o passado. Nada pode se rivalizar ao que acredita ser o seu papel na história. Daí a demonização dos líderes sindicais que não rezavam pela sua cartilha, a desqualificação dos políticos que não aceitaram segui-lo. Além do discurso, usou do “convencimento” financeiro. Cooptou muitos dos antigos opositores utilizando-se dos recursos do Erário. Transformou as empresas estatais em apêndices dos seus desejos. Amarrou os destinos do país ao seu projeto de poder.
Como o conde de Monte Cristo, o ex-presidente conta cada dia que passa. A sua “vingança” é o retorno, em 2014. Conta com a complacência de um país que tem uma oposição omissa, ou, na melhor das hipóteses, tímida. Detém o controle absoluto do PT. Usa e abusa do partido para fortalecer a sua capacidade de negociação com outros partidos e setores da sociedade. É obedecido sem questionamentos.
Lula é uma avis rara da política brasileira. Nada o liga à nossa tradição. É um típico caudilho, tão característico da América Hispânica. Personalista, ególatra, sem princípios e obcecado pelo poder absoluto. E, como todo caudilho, quer se perpetuar no governo. Mas os retornos na América Latina nunca deram certo. Basta recordar dois exemplos: Getúlio Vargas e Juan Domingo Perón.
MARCO ANTONIO VILLA é historiador e professor da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar).
domingo, 23 de outubro de 2011
Impunidade
JOÃO UBALDO RIBEIRO
Distinto leitor, encantadora leitora, ponham-se na pele de quem tem de escrever toda semana. Não me refiro à obrigação de produzir um texto periodicamente, sem falhar. Às vezes, como tudo na vida, é um pouquinho chato, mas quem tem experiência tira isso de letra, há truques e macetes aprendidos informalmente ao longo dos anos e o macaco velho não se aperta. O chato mesmo, na minha opinião, é o “gancho”, o pé que o texto tem de manter na realidade que o circunda. Claro, nada impede que se escreva algo inteiramente fantasioso ou delirante, mas o habitual é que o artigo ou crônica seja suscitado pelo cotidiano, alguma coisa que esteja acontecendo ou despertando interesse.
Pois é. Hoje, outra vez, qual é o gancho? Quer se leia o jornal, quer se converse na esquina, só se fala em ladroagem. Roubalheiras generalizadas, desvios, comissões, propinas. Rouba-se tudo, em toda parte. Roubam-se recursos do governo na União, nos estados e nos municípios. Roubam-se donativos humanitários e verbas emergenciais destinadas a socorrer flagelados. Rouba-se material, rouba-se combustível, rouba-se o que é possível roubar. Qual é, então, o gancho? Só pode ser a ladroagem. Não há outro, pelo menos que eu veja. É o tema do dia, não adianta querer escolher outro, ele se impõe.
Hoje creio que não há um só brasileiro ou brasileira (de vez em quando eu acerto no uso desta nova regra de distinguir os gêneros) que não tenha a convicção de que pelo menos a maior parte dos governantes, nos três poderes, é constituída de privilegiados abusivos e larápios, no sentido mais lato que o termo possa ter. Já nos acostumamos, faz parte do nosso dia a dia, ninguém se espanta mais com nada, qualquer mirabolância delinquente pode ser verdade. E também já nos acostumamos a que não aconteça nada aos gatunos. Não só permanecem soltos, como devem continuar ricos com o dinheiro furtado, porque não há muita notícia de devoluções.
Ou seja, por mais que alguma autoridade nos diga expressamente o contrário, usando um juridiquês duvidoso e estatísticas entortadas, a verdade é que, no Brasil, o crime compensa. Presumo que até os assaltantes pés de chinelo tenham pelo menos a vaga percepção de que todos os poderosos roubam e, portanto, fica mais uma vez comprovado que quem não rouba é otário. Às vezes, chega a parecer que existe uma central programadora de falcatruas, pois a engenhosidade dos ladrões não tem limites e, hoje, analisar somente os golpes dados em um ou dois ministérios requereria um profissional especializado, com anos de estudo e experiência. É criado um órgão ou despesa, aparece logo uma quadrilha dedicada a furtar desse órgão ou abiscoitar essa despesa. Suspeitamos de tudo, de obras públicas a loterias, da polícia aos tribunais. Contamos nos dedos os governantes, em qualquer dos três poderes, em que ainda acreditamos que podemos confiar — e é crescente a descrença neles, bem como o cinismo e a apatia diante de uma situação que parece insolúvel e da qual, como quem cumpre uma sina má, jamais nos desvencilharemos.
Não seria de todo descabida a afirmação de que somos uma sociedade sem lei. Sob certos aspectos, somos mesmo, porque as nossas leis não têm dentes, não mordem ninguém. Mesmo na hipótese de um assassinato ser esclarecido, o que está longe da regra, estamos fartos de ver homicidas ficarem praticamente impunes por força de uma labiríntica e deploravelmente formalista rede de recursos, firulas jurídicas e penas brevíssimas. A possibilidade de, mesmo confesso, um homicida jamais ser de fato punido, a não ser muito levemente, é concretizada todo dia. Aqui matar é cada vez mais trivial e muitos assaltantes atiram pelo prazer de atirar, matam pelo gosto de matar.
Não sei em que outro país do mundo o sujeito entra numa delegacia policial levando o cadáver da vítima, mostrando a arma do crime e confessando sua autoria, para ser posto em liberdade logo em seguida, já cercado de advogados e manobras para evitar a cadeia. É difícil de acreditar, mesmo sabendo-se que é verdade documentada. Réu primário, moradia conhecida, ocupação fixa etc. e tal e o sujeito vai para casa quase como se nada tivesse acontecido, talvez até trocando um aperto de mão com o delegado, como já imaginei aqui. Ou seja, é crime, mas é mole matar no Brasil, o preço é muito em conta. E essa situação não envolve apenas os ricos, porque os outros também estão aprendendo, como foi o caso de um jovem assaltante de São Paulo, que muitos de vocês devem ter visto na TV. Apresentou-se numa delegacia espontaneamente, é réu primário, tem residência fixa etc. etc. Embora tenha posto a culpa na vítima, por esta haver reagido, confessou o crime. Foi solto logo em seguida, saindo muito sorridente da delegacia. E, se um dia vier a ser condenado, contará com um mar de recursos à sua disposição, complementados pelos benefícios a que terá direito, com a progressão da pena.
Já tive oportunidade de dizer aqui que a melhor maneira de assassinar alguém no Brasil é encher a cara, sair no carro e atropelar a vítima. Encher a cara é agravante em toda parte, mas aqui parece funcionar como uma espécie de atenuante. Fica-se discutindo se o homicídio é doloso ou culposo, se o que vale no caso é o Código de Trânsito ou o Código Penal e, no fim das contas, o que acontece é o atropelador pagar fiança, ir embora para casa e esperar, na pior das hipóteses, ser enquadrado numa dessas leis desdentadas e cumprir pena em liberdade, ou quase isso. O que, somado ao que está dito acima, leva mesmo a concluir que, entre nós, o crime compensa. E, talvez graças aos exemplos dados por parlamentares e outros governantes, estamos assistindo à democratização da impunidade, que gradualmente deixa de ser privilégio dos ricos e poderosos para se estender a todos. Tá dominado.
JOÃO UBALDO RIBEIRO é escritor.
oglobo.com.br/opiniao
Aqui matar é cada vez mais trivial
Sent from my iPad
domingo, 16 de outubro de 2011
Economist Saúde e Ondas de rádio.
Difference engine
Worrying about wireless
Technology and society: Concerns about the danger posed to human health by radio waves are misplaced—and increasingly irrelevant. The use of phones while driving is far more likely to cause harm
Sep 3rd 2011 | from the print edition
ALTHOUGH the myth that mobile phones cause cancer has been laid to rest, an implacable minority remains convinced of the connection. Their fears have been aggravated of late by bureaucratic bickering at the World Health Organisation (WHO). Let it be said, once and for all, that no matter how powerful a radio transmitter—whether an over-the-horizon radar station or a microwave tower—radio waves simply cannot produce ionising radiation. The only possible effect they can have on human tissue is to raise its temperature slightly.
In the real world, the only sources of ionising radiation are gamma rays, X-rays and extreme ultra-violet waves, at the far (ie, high-frequency) end of the electromagnetic spectrum—along with fission fragments and other particles from within an atom, plus cosmic rays from outer space. These are the sole sources energetic enough to knock electrons out of atoms—breaking chemical bonds and producing dangerous free radicals in the process. It is highly reactive free radicals that can damage a person’s DNA and cause mutation, radiation sickness, cancer and even death.
By contrast, at their much lower frequencies, radio waves do not pack anywhere near enough energy to produce free radicals. The “quanta” of energy (ie, photons) carried by radio waves in, say, the UHF band used by television, Wi-Fi, Bluetooth, cordless phones, mobile phones, microwave ovens, garage remotes and many other household devices have energy levels of a few millionths of an electron-volt. That is less than a millionth of the energy needed to cause ionisation.
All of which leaves doctors more than a little puzzled as to why the WHO should recently have reversed itself on the question of mobile phones. In May the organisation’s International Agency for Research on Cancer (IARC) voted to classify radio-frequency electromagnetic fields (ie, radio waves) as “a possible carcinogenic to humans” based on a perceived risk of glioma, a malignant type of brain cancer.
A year earlier, after a landmark, decade-long study undertaken by teams in 13 countries, the IARC had reported that no adverse health effects associated with the use of mobile phones could be found. As for the heating effects of radio waves, the increase in temperature of the skin caused by holding a phone close to the ear was found to be an order of magnitude less than that caused by direct sunlight.
The Group 2B classification the IARC has now adopted for mobile phones designates them as “possible”, rather than “probable” (Group 2A) or “proven” (Group 1) carcinogens. This rates the health hazard posed by mobile phones as similar to the chance of getting cancer from coffee, petrol fumes and false teeth.
That has not stopped the tinfoil-hat brigade from continuing to believe that deadly waves in the ether are frying their brains. Lately the paranoia has spread to the smart meters being introduced by electrical utilities in various parts of the world. Smart meters are designed to relay wireless messages to the power company about a household’s pattern of electricity use. Such real-time data could help utilities manage their generating capacity more intelligently.
But a backlash among homeowners in northern California, who fear they are about to be drenched in dangerous radio waves, has forced a handful of municipalities to slap moratoriums on the smart meters being introduced by Pacific Gas & Electric. Customers will be given the option to keep their old analogue meters, but will be charged for having someone come to read them every month.
Actually, smart meters are just about the last thing that people need worry about. In an independent study released in April, the California Council on Science and Technology, an advisory arm of the state legislature, concluded that wireless smart meters produce much lower levels of radio-frequency exposure than many existing household devices—especially microwave ovens. The council noted that, to date, it had not been possible to identify any health problems resulting from potential non-thermal effects of radio waves (should such effects exist). But nor had it been possible to show categorically that there weren’t any.
You can’t prove a negative
The latter is next to impossible. Indeed, by classifying mobile phones as a Group 2B risk, what the IARC was effectively saying (and the California Council on Science and Technology implying) was that, even if such a health risk exists, there is no way of ever ruling out bias, chance or other confounding circumstance with any reasonable degree of confidence. So, to hedge bets, protect careers and guarantee future funding, the obvious thing to suggest is yet more research on the long-term, heavy use of mobile phones. The most likely result is that the results will be equally inconclusive.
And equally irrelevant. The Twitter generation tweets and texts rather than talking. Older people are catching up fast. According to Nielsen, a market-research firm, the number of text messages sent and received by Americans aged between 45 and 54 rose by 75% in the year to the second quarter of 2010. Over the same period, the number of phone calls made and received by adults of all ages fell by 25%. Meanwhile, for those who still insist on yakking, hands-free is fast becoming the norm, thanks to stiffer penalties for using handsets while driving and the spread of Bluetooth headsets.
The whole brouhaha over mobile phones causing brain cancer is a monumental irrelevance compared with scofflaws who insist on using their handsets to text or talk while driving. Regretfully, that is a far more likely cause of death or disfigurement than some inexplicable form of radio-induced glioma.
from the print edition | Technology Quarterly
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