Tolerância zero
Há três anos, o ator Wagner Moura saía de uma entrega de prêmios quando foi abordado por um suposto repórter de programa de TV do interior. Wagner, que já entrava no táxi, decidiu, por gentileza, conceder-lhe uma entrevista. De repente, surge outra pessoa por trás dele e, com a mão lambuzada de gel, esfrega a pasta viscosa na cabeça do ator enquanto ri para a câmera. Eram os “humoristas” do programa “Pânico na TV”. O que está acontecendo agora com o jogador Fred, do Fluminense, perseguido e ameaçado, nas ruas e na porta de sua casa, por membros de uma torcida organizada, tem uma semelhança estrutural com a agressão sofrida por Wagner Moura, mas é ainda mais grave, pois passa do plano da mera estupidez covarde ao âmbito da violência velada ou efetiva. Esse episódio merece um repúdio veemente, irrestrito e incondicional. Não é o que a imprensa vem fazendo. Começo por um ângulo psicanalista. O futebol é um fenômeno que envolve muitas dimensões: estéticas, antropológicas, econômicas etc. Uma dessas dimensões, tão fundamental quanto perigosa, é a que a psicanálise lacaniana entende como imaginária. O imaginário é o registro mais primitivo da experiência do sujeito; é o âmbito da formação do ego, o conjunto de imagens, de identificações, que forma o ego de alguém, isto é, a imagem que o sujeito tem de si próprio. A escolha de um time é uma identificação imaginária. “Eu sou Flamengo”, ou seja, identifico-me com o Flamengo, o clube é uma das imagens que sustentam o meu narcisismo, a ideia que faço de mim mesmo. É daí que pode vir a agressividade no futebol: um imaginário decepcionado, contrariado, sente ameaçada a consistência da imagem que fazemos de nós mesmos, e tendemos a ser agressivos para tentar manter nossa imagem, que consideramos ameaçada pelo outro. É isso o que acontece entre torcedores brigões. As pessoas mais civilizadas, no caso, mais constituídas pelo registro simbólico, são em geral capazes de participar da identificação imaginária, torcendo por seus clubes, contentando-se e sofrendo por eles, mas com certo distanciamento, relativizando ao mesmo tempo essa identificação, o que as previne de agredir fisicamente alguém identificado à imagem de um adversário (quando vou ao estádio com amigos filósofos, há um ligeiro mal-estar nas manifestações de expressão imaginária, como pular, cantar os hinos da torcida, etc.: pois todos sabemos que, entre nós, uma tal plenitude imaginária é impossível). Mas as pessoas que são menos constituídas pelo simbólico tendem a se identificar plenamente com seus clubes, e aí a possibilidade da violência é iminente. Torcidas organizadas são uma formação imaginária dentro de um contexto já imaginário. Sem esse âmbito da identificação o futebol seria um esporte tão passional e mobilizador das massas quanto o golfe. Mas é preciso que se relativize esse plano imaginário o tempo todo, desarmando a bomba que ele é. No meu entender, esse deveria ser o papel da imprensa. Sou, por isso, obrigado a discordar da “opinião” manifestada pelo caderno de esportes deste jornal, na edição do último sábado, a propósito do caso Fred. Nela, escreveu-se: “Privacidade é direito constitucional, mas ele tem alguns condicionantes no caso de pessoa pública. Se ganha o bônus da popularidade — expresso também em cifras —, ela paga o inevitável ônus de atrair a atenção geral. No futebol, há jogadores conhecidos pelo comportamento nada profissional — o que não é motivo para agressões. Mas desvios existem, e os torcedores, nos limites da lei, podem externar o desagrado com os ídolos (...)”. Discordo desse texto. O direito à privacidade não tem condicionantes. Se um jogador conduz sua vida privada de modo a que ela prejudique seu desempenho profissional, é exclusivamente no âmbito profissional que isso deve ser criticado e que ele deve sofrer as consequências: os torcedores vaiem, os jornalistas critiquem, o valor de mercado caia. Qualquer extrapolação para o âmbito da vida privada deve ser repudiada e, em casos como o de Fred, levada à polícia (segundo o jogador, alguns de seus perseguidores são fichados por homicídio e formação de quadrilha). O argumento de que celebridades têm que arcar com o “ônus” da fama é inaceitável. Se há uma estrutura injusta no capitalismo globalizado, que concentra brutalmente a renda, elas não são culpadas por isso. Há uma revanche ela mesma imaginária nesse argumento, que legitimaria as perseguições de torcedores a jogadores: “eles são ricos e famosos, então devem andar na linha”, isto é, não devem abusar das possibilidades de gozo que lhes são oferecidas, senão devem ser punidos. Jornalistas que admitem que “desvios” de conduta na vida privada (que podem prejudicar o desempenho público) são passíveis de cobranças na vida privada deviam considerar que o papel público de suas profissões é muito mais importante que o dos jogadores. Se, entretanto, eles tiverem apurado mal uma matéria porque tinham bebido na noite anterior e estavam de ressaca, creio que não gostariam de que um bando de assinantes do jornal ameaçassem-nos na porta de suas casas. Cabe ao leitor suspeitar de sua credibilidade; e, ao jornal, adverti-los ou demiti-los em caso de reincidências. Defender que jogadores de futebol sejam tratados de forma diferente porque são ricos e famosos é assumir uma posição de espírito não legalista, já que discriminatória, e deixar-se levar pelos mesmos princípios imaginários dos torcedores com que Fred recusou-se, corajosamente, a conversar.