sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

A VERDADE ESTÁ NA CARA, MAS NÃO SE IMPÕE ( ARNALDO JABOR )
O que foi que nos aconteceu?
No Brasil, estamos diante de acontecimentos inexplicáveis, ou melhor, "explicáveis" demais.
Toda a verdade já foi descoberta, todos os crimes provados, todas as mentiras percebidas.
Tudo já aconteceu e nada acontece. Os culpados estão catalogados, fichados, e nada rola.
A verdade está na cara, mas a verdade não se impõe. Isto é uma situação inédita na História brasileira.
Claro que a mentira sempre foi a base do sistema político, infiltrada no labirinto das oligarquias, claro que não esquecemos a supressão, a proibição da verdade durante a ditadura, mas nunca a verdade foi tão límpida à nossa frente e, no entanto, tão inútil, impotente, desfigurada.
Os fatos reais: com a eleição de Lula, uma quadrilha se enfiou no governo e desviou bilhões de dinheiro público para tomar o Estado e ficar no poder 20 anos.
Os culpados são todos conhecidos, tudo está decifrado, os cheques assinados, as contas no estrangeiro, os tapes, as provas irrefutáveis,mas o governo psicopata de Lula nega e ignora tudo.
Questionado ou flagrado, o psicopata não se responsabiliza por suas ações.
Sempre se acha inocente ou vítima do mundo, do qual tem de se vingar.O outro não existe para ele e não sente nem remorso nem vergonha do que faz. Mente compulsivamente, acreditando na própria mentira, para conseguir poder.
Este governo é psicopata!!! Seus membros riem da verdade, viram-lhe as costas, passam-lhe a mão nas nádegas.
A verdade se encolhe, humilhada, num canto. E o pior é que o Lula, amparado em sua imagem de "povo", consegue transformar a Razão em vilã, as provas contra ele em acusações "falsas", sua condição de cúmplice e comandante em "vítima".
E a população ignorante engole tudo. Como é possível isso?
Simples: o Judiciário paralítico entoca todos os crimes na Fortaleza da lentidão e da impunidade. Só daqui a dois anos serão julgados os indiciados - nos comunica o STF.
Os delitos são esquecidos, empacotados, prescrevem.
A Lei protege os crimes e regulamenta a própria desmoralização. Jornalistas e formadores de opinião sentem-se inúteis, pois a indignação ficou supérflua. O que dizemos não se escreve, o que escrevemos não se finca, tudo quebra diante do poder da mentira desse governo.
Sei que este é um artigo óbvio, repetitivo, inútil, mas tem de ser escrito....
Está havendo uma desmoralização do pensamento Deprimo-me:" Denunciar para quê, se indignar com quê? Fazer o quê?".
A existência dessa estirpe de mentirosos está dissolvendo a nossa língua.
Este neocinismo está a desmoralizar as palavras, os raciocínios. A língua portuguesa, os textos nos jornais, nos blogs, na TV, rádio, tudo fica ridículo diante da ditadura do lulo-petismo .
A cada cassado perdoado, a cada negação do óbvio, a cada testemunha, muda, aumenta a sensação de que as idéias não correspondem mais aos fatos! Pior: que os fatos não são nada - só valem as versões, as manipulações.
No último ano, tivemos um único momento de verdade, louca, operística, grotesca, mas maravilhosa, quando o Roberto Jefferson abriu a cortina do país e deixou-nos ver os intestinos de nossa política. Depois surgiram dois grandes documentos históricos: o relatório da CPI dos Correios e o parecer do procurador-geral da República.
São verdades cristalinas, com sol a Pino.
E, no entanto, chegam a ter um sabor quase de "gafe". Lulo- petistas clamam: "Como é que a Procuradoria Geral, nomeada pelo Lula, tem o desplante de ser tão clara! Como que o Osmar Serraglio pode ser tão explícito, e como o Delcídio Amaral não mentiu em nome do PT ? Como ousaram ser honestos?".
Sempre que a verdade eclode, reagem.
Quando um juiz condena rápido, é chamado de "exibicionista". Quando apareceu aquela grana toda no Maranhão (lembram, filhinhos?), a família Sarney reagiu ofendida com a falta de "finesse" do governo de FH, que não teve a delicadeza de avisar que a polícia estava chegando... Mas agora é diferente.
As palavras estão sendo esvaziadas de sentido.
Assim como o stalinismo apagava fotos, reescrevia textos para contestar seus crimes, o governo do Lula está criando uma língua nova, uma novi-língua empobrecedora da ciência política, uma língua esquemática, dualista, maniqueísta, nos preparando para o futuro político simplista que está se consolidando no horizonte. Toda a complexidade rica do país será transformada em uma massa de palavras de ordem, de preconceitos ideológicos movidos a dualismos e oposições, como tendem a fazer o populismo e o simplismo. Lula será eleito por uma oposição mecânica entre ricos e pobres, dividindo o país em "a favor" do povo e "contra", recauchutando significados que não dão mais conta da circularidade do mundo atual.
Teremos o "sim" e o "não", teremos a depressão da razão de um lado e a psicopatia política de outro, teremos a volta da oposição mundo x Brasil, nacional x internacional e um voluntarismo que legitima o governo de um Lula 2 e um Garotinho depois. Alguns otimistas dizem:
"Não... este maremoto de mentiras nos dará uma fome de verdades!".

sábado, 5 de janeiro de 2008

Arnaldo Bloch 2o caderno O Globo 5-1-08

Estranho ano novo
Lula dá uma de Collor e 2008 começa sob o signo da mentira Arnaldo
Março de 1990. No dia seguinte à sua posse, o presidente Fernando Collor de Mello, por meio de sua ministra Zélia Cardoso, anuncia o confisco da poupança dos brasileiros.

Com exceção da economista Maria da Conceição Tavares — e de uma parte do eleitorado tão histericamente iludida quanto ela — o Brasil reage horrorizado. Não só com as medidas que expurgavam o dinheirinho suado do próximo, mas com a fantástica mentira perpetrada: poucos meses antes, durante a campanha, Collor havia jurado de pés juntos que não mexeria na poupança do povo.

Nos Estados Unidos — com todos os demônios inerentes à menção do nome do país sem nome — a mentira evidenciada tirou Nixon do poder num caso cabeludo de espionagem partidária e quase derrubou Clinton por causa da admissão tardia de um mero boquete. Aqui, Collor caiu, mas não por ter mentido: detonaram-no, simplesmente, por ter ido ao pote com sede demais.

Lembro-me da repulsa que tive a Collor antes mesmo de conhecerlhe qualquer atributo político: eram os olhos de louco, saltados, que me metiam medo. Assim como assombrado fiquei cada vez que Zélia, com aquela fisionomia verde, extraterrestre, foi à TV explicar o momento abençoado que vivíamos com o pacote de março.

Aquele espectro enquadrado tentava, com seus olhos fundos e químicos, nos convencer de que o estelionato eleitoral, a fraude calculada e o alto furto eram justificáveis em nome de um bem maior.

Lembro também da boa impressão que em contrapartida me causou, à época, a expressão “caçador de maracujás” com que Lula, ao fim do último debate, zombou do adversário e de sua alcunha de campanha: “caçador de marajás”. Terminou derrotado, mas lúcido.

Por isso, quando, na última quintafeira, dia 2, seguinte ao feriado de ano novo, Lula anunciou seu pacote compensatório ao fim da CPMF, baseado em aumento de impostos que incidem sobre o crédito, senti um arrepio. Ainda que as medidas não possam ser comparadas, em virulência, ao assalto collorido, a semelhança era óbvia: duas semanas antes, Lula dissera publicamente que não havia qualquer possibilidade de aumento de impostos, desautorizando o ministro Guido Mantega — que, na véspera, defendera o arrocho fiscal. Ao dizêlo, inclusive, Lula usara de sua habitual veemência: essa idéia de aumentar impostos era “uma loucura” e, a CPMF, “assunto do passado”.

Pois, mal começa o ano, e batata: os impostos aumentam, de surpresa, depois do feriado! A explicação de Guido Mantega — a Zélia da vez — argumentando que a promessa de Lula só valia para 2007 (faltando poucos dias para o réveillon), foi de um cinismo à altura dos brioches de Maria Antonieta.

Num governo sério, Mantega ia para a rua em ato sumário por brincar com a boa-fé alheia e ridicularizar o presidente. Mas como Lula é anuente, o ministro deitou e rolou.

Triste essa maneira de um presidente inaugurar o ano. E não venham mencionar os eventuais benefícios ou a necessidade imperiosa das medidas: discute-se, aqui, a desfaçatez com que o embuste e a impostura se fazem, na voz do representante do estado, e imperam como hábito casual, entre o naturalizado e o poético: metamorfose ambulante, Raul evocado em vão: o vão infinito da demagogia.

Se o ano começa assim, o que esperar de sua continuidade? Que tipo de pacto social se estabelece quando a palavra do chefe da nação deixa de ter lastro? O que é que vale, então? Vale o que está dito? O que está escrito? No bloquinho? No microfone? Ou na calada da noite, nas cúpulas apressadas? Vai de Mantega ou margarina? Devemos nos espelhar neste exemplo? Fala-se tanto em bom exemplo nas campanhas governamentais, mas o que vem é um festival de sinais trocados, luzes e fogos de réveillon, ao sabor das estratégias, e dane-se o público iludido com as fugazes belezas.

O país se transformou num espetáculo de pirotecnia cacofônica, de códigos disléxicos, elásticos. Se a anarquia está longe, a esquizofrenia institucional continua a mover as dores e delícias do nosso Brasil.