sábado, 5 de janeiro de 2008

Arnaldo Bloch 2o caderno O Globo 5-1-08

Estranho ano novo
Lula dá uma de Collor e 2008 começa sob o signo da mentira Arnaldo
Março de 1990. No dia seguinte à sua posse, o presidente Fernando Collor de Mello, por meio de sua ministra Zélia Cardoso, anuncia o confisco da poupança dos brasileiros.

Com exceção da economista Maria da Conceição Tavares — e de uma parte do eleitorado tão histericamente iludida quanto ela — o Brasil reage horrorizado. Não só com as medidas que expurgavam o dinheirinho suado do próximo, mas com a fantástica mentira perpetrada: poucos meses antes, durante a campanha, Collor havia jurado de pés juntos que não mexeria na poupança do povo.

Nos Estados Unidos — com todos os demônios inerentes à menção do nome do país sem nome — a mentira evidenciada tirou Nixon do poder num caso cabeludo de espionagem partidária e quase derrubou Clinton por causa da admissão tardia de um mero boquete. Aqui, Collor caiu, mas não por ter mentido: detonaram-no, simplesmente, por ter ido ao pote com sede demais.

Lembro-me da repulsa que tive a Collor antes mesmo de conhecerlhe qualquer atributo político: eram os olhos de louco, saltados, que me metiam medo. Assim como assombrado fiquei cada vez que Zélia, com aquela fisionomia verde, extraterrestre, foi à TV explicar o momento abençoado que vivíamos com o pacote de março.

Aquele espectro enquadrado tentava, com seus olhos fundos e químicos, nos convencer de que o estelionato eleitoral, a fraude calculada e o alto furto eram justificáveis em nome de um bem maior.

Lembro também da boa impressão que em contrapartida me causou, à época, a expressão “caçador de maracujás” com que Lula, ao fim do último debate, zombou do adversário e de sua alcunha de campanha: “caçador de marajás”. Terminou derrotado, mas lúcido.

Por isso, quando, na última quintafeira, dia 2, seguinte ao feriado de ano novo, Lula anunciou seu pacote compensatório ao fim da CPMF, baseado em aumento de impostos que incidem sobre o crédito, senti um arrepio. Ainda que as medidas não possam ser comparadas, em virulência, ao assalto collorido, a semelhança era óbvia: duas semanas antes, Lula dissera publicamente que não havia qualquer possibilidade de aumento de impostos, desautorizando o ministro Guido Mantega — que, na véspera, defendera o arrocho fiscal. Ao dizêlo, inclusive, Lula usara de sua habitual veemência: essa idéia de aumentar impostos era “uma loucura” e, a CPMF, “assunto do passado”.

Pois, mal começa o ano, e batata: os impostos aumentam, de surpresa, depois do feriado! A explicação de Guido Mantega — a Zélia da vez — argumentando que a promessa de Lula só valia para 2007 (faltando poucos dias para o réveillon), foi de um cinismo à altura dos brioches de Maria Antonieta.

Num governo sério, Mantega ia para a rua em ato sumário por brincar com a boa-fé alheia e ridicularizar o presidente. Mas como Lula é anuente, o ministro deitou e rolou.

Triste essa maneira de um presidente inaugurar o ano. E não venham mencionar os eventuais benefícios ou a necessidade imperiosa das medidas: discute-se, aqui, a desfaçatez com que o embuste e a impostura se fazem, na voz do representante do estado, e imperam como hábito casual, entre o naturalizado e o poético: metamorfose ambulante, Raul evocado em vão: o vão infinito da demagogia.

Se o ano começa assim, o que esperar de sua continuidade? Que tipo de pacto social se estabelece quando a palavra do chefe da nação deixa de ter lastro? O que é que vale, então? Vale o que está dito? O que está escrito? No bloquinho? No microfone? Ou na calada da noite, nas cúpulas apressadas? Vai de Mantega ou margarina? Devemos nos espelhar neste exemplo? Fala-se tanto em bom exemplo nas campanhas governamentais, mas o que vem é um festival de sinais trocados, luzes e fogos de réveillon, ao sabor das estratégias, e dane-se o público iludido com as fugazes belezas.

O país se transformou num espetáculo de pirotecnia cacofônica, de códigos disléxicos, elásticos. Se a anarquia está longe, a esquizofrenia institucional continua a mover as dores e delícias do nosso Brasil.

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